quarta-feira, 13 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - Dia VII

24.05.2018
Ao fazer a caminhada matinal, depois de ter passado pelos dois terreiros superior, uma escadaria em construção chamou a minha atenção - onde vai dar? 
Fui descendo e eis que os meus olhos são atraídos por um terceiro terreiro, este mais modesto. Para além do terreiro, vislumbro uma edificação com paramento de pedra à vista. A ladear a escada, temos uma canaleta que traz a água da nascente que percorre toda a fazenda. Esta água culmina num tanque conforme desenho abaixo. Sai o primeiro desenho da manhã
Desço mais um pouco e a beleza do edifício vai ganhando proporções inesperadas. Sabe tão bem descobrir este património discreto.
O calor que se fazia sentir fez.me procurar espaços arborizados. Mas fiquei com a certeza de que voltaria aqui para conhecer um pouco mais este edifício, e se possível entrar para ver os engenhos.
Subo até à Casa com o objetivo de desenhar o interior, no entanto era dia de visita de estudo. Enquanto desenhava no jardim, alguns alunos aproximam-se e fico a saber que são alunos de arquitetura. Depois de verem o caderno e eu explicar o que ali estava a fazer, faço a pergunta habitual - "quantos desenham em cadernos ?". 2responderam afirmativamente e um deles não era aluno, mas sim professor. Enquanto tiver respostas destas vou continuar nesta luta.
Quando fico sozinho vou ouvindo o Carlos, um dos monitores da Casa, e não resisti, passei para o papel a história da Condessa, mais propriamente o seu segredo para ter chegado aos 103 anos.

A seguir ao almoço decido desenhar um dos enquadramentos mais conhecidos e retratados, já que era nesta escadaria que a família pousava para as fotos de família. 
A meio da tarde, sou convidado pela Denize e pelo Arthur a fazer uma visita guiada à Tulha, onde estava o Sr. João, acompanhado pelo seu filho também ele João, responsáveis pelo funcionamento do engenho. Ver a máquina a funcionar, a separar café, sobre a batuta do maestro João, foi uma das experiências mais marcantes desta viagem - Património material e imaterial em plena simbiose. Tirei muitas fotos, escrevi muito, conversei muito, mas não consegui desenhar.
Ao final da tarde vou à descoberta da famosa Colónia. Ao aproximar-me não resisto a fazer este registo. Amanhã voltamos à Colónia para conhecer melhor este lugar.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - dia VI

23.05.2018
 
Um dia em cheio no Centro de Estudos Casa do Pinhal, dedicado a troca de experiências, envolvendo os investigadores do Centro de Estudos e a Universidade de São Paulo - Curso de Arquitetura de São Carlos, tendo como temas o património histórico e os contributos para a sua salvaguarda, assim como o papel do desenho na educação patrimonial e na prática da arquitetura do séc. XXI. Estes dois desenhos fi-los de manhã bem cedo.
 
 
Depois do workshop e da palestra e quando todos foram para casa, o ócio chamou por mim. Vista da Casa do Pinhal e do lago, onde reina o Afonso, um cisne com sangue português.
A casa onde ficava, digna de um conde (diga-se de passagem), tinha um alpendre e um cadeirão. Quando não era visitado por papagaios ou macacos, aproveitava para desenhar.
 
 
 

Curso Livre de Desenho - Universidade Lusófona

25 de julho regresso à Lusófona, onde vou dar o meu pequeno contributo para este enorme projeto - fomentar o gosto pelo desenho.

Aproveito para agradecer à Prof. Arq. Filipa Oliveira Antunes, pelo convite, mas sobretudo pelo excelente trabalho que tem feito em prole do ensino do desenho no curso de arquitetura.




Objetivos Gerais

Disponibilizar ferramentas analógicas e técnicas de abordagem ao desenho de observação em ambiente urbano e natural.
Conceber registos similares ao observado, através de processos criativos. Apresentar desenhos de síntese observada.

Objetivos Específicos

  • Compreender quais os primeiros passos a considerar no início de um desenho de observação
  • Adquirir conhecimentos tridimensionais que facilitem a elaboração de desenhos de observação
  • Determinar os elementos e procedimentos fundamentais para a representação desenhada de um espaço físico
  • Compreender o que se espera de um desenho de observação
  • Organizar e estruturar corretamente o desenho
  • Realizar referências de proporção
  • Identificar procedimentos para realizar a tridimensionalidade desenhada
  • Distinguir desenho de observação de desenho conceptual

Competências

  • Aptidão para desenhar através da observação em ambiente urbano e natural
  • Capacidade para desenhar tridimensionalmente
  • Aptidão para sintetizar e simular o espaço observado num registo desenhado
  • Aptidão para o desenho de espaços físicos

Mais informações Aqui


domingo, 10 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - Dia V


22.05.2018 Fazenda do Pinhal
 
Saí cedo de Araraquara, rumo a São Carlos, mais precisamente a Fazenda do Pinhal. O clima estava tenso na cidade, começava a sentir-se os efeitos da greve dos camionistas: falta de combustível, trânsito quase parado, falta de mantimentos em alguns estabelecimentos…
Apesar de tudo, chegamos bem a Casa do Pinhal, onde fomos extraordinariamente recebidos pela Denize, diretora do Centro de Estudos da Casa do Pinhal.
 
Depois de uma visita guiada e de um almoço ao som dos pássaros e da água a correr pelas canaletas (as nossas levadas), despedi-me dos companheiros de viagem para ficar aqui em residência durante 5 dias: desenho, workshops de desenho de observação; palestras sobre desenho e património… vida difícil…
 
 
 
 
 
 

O primeiro dia foi pouco produtivo em relação ao desenho. Cada canto é um hino ao espanto, sendo muito difícil escolher "aquele enquadramento".

sábado, 9 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - dia IV

21.05.2018  Último dia em Araraquara

A tarde foi passada na Chácara Sapucaia, onde fui recebido pela Teresa Telarolli, Secretária da Cultura da Prefeitura de Araraquara e Beatriz Aied, presidente do Conselho do Património de Araraquara. Fui convidado para uma palestra e troca de experiencias com os membros do Conselho do Património sobre estratégias de salvaguarda do património cultural.






Neste momento a Chácara sedia a Secretaria da Cultura. 
Depois de uma tarde intensa e muito enriquecedora, voltei ao Hotel para um curto descanso, pois daí a nada começava a palestra na Universidade de Arquitetura de Araraquara, integrando XXI Semana da Arquitetura. A minha comunicação foi sobre a Regeneração Física e Social da Encosta de S. Vicente. 
Apesar de breve, esta paragem deu para fazer um último desenho em Araraquara e o edifício escolhido foi o Novo Hotel Municipal, aquele que foi o nosso quartel-general nos últimos dias.  Para além da beleza arquitetónica (interior e exterior), da excelente localização (próximo de tudo), destaco a qualidade do atendimento. A todos os funcionários, muito obrigado.

No dia seguinte parti para a Fazenda Conde do Pinhal (São Carlos)



sexta-feira, 8 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil - 2018 - dia III (tarde)

20.05.2018  parte da tarde

Depois de uma manhã intensa seguimos para a cidade, mais precisamente para junto do Teatro Municipal, uma obra de arquitetura brutalista, da autoria dos arquitetos Arnaldo Palamone Lepre e Francisco Santoro, construído em 1977. O edifício encontra-se em obras de reabilitação e apesar do estado de degradação, continua bastante desenhável. 
Depois da habitual voltinha de contemplação, eis que dá inicio o Workshop orientado pelo Pedro Alves.



No final, enquanto organizavam a habitual partilha de desenhos e foto de grupo, aproveitei para registar esta lanchonete ambulante, a "Bokita".

Seguimos para o Drink & Draw no espaço Cris, com um belo momento musical. Bossa nova ao vivo é outra coisa. O registo que se segue resulta de um "desenho cego". 

No final, uma nova surpresa, o reencontro com o Alex Lima, que em 2017 esteve em Torres Vedras fazendo parte do Coletivo Brasil.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - Dia III (manhã)

20.05.2018
 
2º dia do Encontro Internacional de Desenho de Rua
O 1º workshop foi orientado por mim e o local escolhido não podia ter sido melhor - o Assentamento Bela Vista.
 
O desafio passava por criar composições gráficas que conciliassem desenho e escrita. Trazer nos cadernos pedaços da história daquele lugar e da sua comunidade.
 
 
O casarão do Assentamento é uma peça única com uma carga emotiva muito forte. Enquanto fazia este desenho, ouvia a história que a nossa anfitriã, a Silvani, contava. Dos escravos, aos sem-terra, uma vida dura, de muito trabalho, muita pobreza, onde os direitos humanos nem sequer eram conhecidos. Silvano terminou a sua apresentação em lágrimas, explicando que para além da emoção de reviver a história dramática desta comunidade, estava emocionada por haver um grupo de pessoas que se interessou pelo Assentamento para conhecer a história dos "esquecidos" escravos e dos sem-terra, para conhecer as casas simples, as ruas de terra e lamacentas, pois "normalmente as pessoas vêm cá para conhecer a história do poderoso dono das terras, a história da família e do casarão, dos negócios e da política e esquecem-se do essencial - os escravos e os sem-terra que muito sofreram nas mãos dos senhores". (Silvani)
 
 
 
Apesar da abolição à escravatura ter acontecido no ano de 1888, muitas destas fazendas do interior, onde a fiscalização era escassa, os poderosos senhores, os famosos coronéis conseguiram ludibriar a lei e prolongar a escravatura até ao inicio do séc. XX.
 
Instalou-se um silêncio ensurdecedor. Ganhamos coragem para mais uns desenhos, seguindo-se a capela de São Judas Tadeu. Uma pequena e modesta capela. Iniciei o desenho quase no final da cerimónia. Ainda ia nos primeiros traços e as pessoas que saem da missa veem falar comigo, para saber que encantos nós tínhamos encontrado naquele lugar. Digamos que saiu um desenho cego (muita conversa). Do lado direito, tentei registar uma das casas do assentamento. Fui atraído por uma dupla bem simpática que se divertia a desmontar/montar uma mota. Fizemos uma aposta entre os 3 - quantas peças vão sobrar no final?
No final do desenho surge a D. Noémia, que vive na casa e é mãe de um dos "mecânicos". Tem 70 anos e vive no assentamento há 50 anos. É viúva e com ela vive o seu filho Marco (agricultor de semana e "mecânico" de vez em quando).
 
 
Depois de registar mais umas casas, eis que reencontro a D. Noémia e o seu filho. "Moço, a vida aqui é muito dura, temos pouca coisa, mas não queremos sair daqui não. Somos muito felizes."
Falei com outras pessoas e todas elas disseram o mesmo.
 
 
 
 
  
 

terça-feira, 5 de junho de 2018

Caderno de Viagem Brasil 2018 - Dia II

19.05.2018

1º dia do Encontro Internacional de Desenho de Rua integrado no Arte ao Centro Portugal - Brasil.

O António Bártolo foi o primeiro formador e o local e escolhido foi o Parque do Pinheirinho, na periferia da cidade de Araraquara. 

A partida de autocarro estava marcada para as 8h, pois aqui o sol nasce cedo e a vida da cidade também. O local de encontro foi o Palacete das Rosas, mesmo junto ao nosso hotel.
Enquanto esperava, saiu o primeiro desenho. Gosto particularmente destes desenhos inacabados - hora de partir.



Chegámos ao Parque, mas a receção não foi a melhor - começou a chover. No entanto, não desarmámos. Procuramos um abrigo e o António lá começou a espalhar magia, passando os seus ensinamentos. Nem o mini-ciclone que se formou mesmo junto ao parque demoveu os participantes.
Aproveitei para registar o momento - a concentração dos participantes e a performance do mestre.


Num segundo momento procurámos outro abrigo - uma pequena capela.


Perto da hora do almoço partimos para a Fazenda do Salto Grande. Para mim e para o António foi um regresso, pois já lá tínhamos estado em 2016. No entanto, a beleza da Fazenda e a comida que lá se serve, justificam muitas visitas. Aproveitei para registar uma das cozinheiras enquanto fazia uma das melhores muquecas do Brasil.


Da parte da tarde, o único compromisso que tínhamos era "desenhar o que quiséssemos". Lá fomos nós com essa "dura missão". Eu queria um enquadramento onde pudesse representar várias realidades sociais da fazenda - da esquerda para a direita temos o telheiro das alfaias agrícolas, a sanzala, a tulha do café e o terreiro, território dos escravos. Ao centro temos o casarão do senhor do café, que a partir da varanda da sua casa controlava tudo o que se passava na fazenda. 


Ao final do dia, antes da inauguração da exposição "Torres Vedras em Araraquara", eu, o António, o Pedro e o Simon fomos à procura de uma lanchonete para comer, porque isto de desenhar também cansa (e abre o apetite). O Simon é mesmo esse que estão a pensar, Simon Taylor de Curitiba, ou de Torres Vedras, pois ele já não sabe bem... O Simon fez 12h de ônibus só para se juntar a nós e ainda bem que o fez (obrigado Simon).
Aproveitei sempre estes momentos mais descontraídos para treinar o desenho de pessoas, mas sobretudo para registar o momento.






Publicação em destaque

Nota Biográfica

André Duarte Baptista, arquiteto, nasce em 1980 na cidade de Torres Vedras, onde reside e trabalha. Em 2013, obtém o grau mestre em arqui...